quarta-feira, 12 de maio de 2010

Autocataclismo 007/100525 > A Laife

A laife, filho?! A laife é espiralada e afunilada. Tende para algo, sem dúvida, mas o quê? Ninguém o sabe, nem mesmo os que, tão nobres de espírito, o perseguiam deixando para trás apenas as suas boas intenções. Como consequência disto perguntava-me, faz não muito tempo, o que sou eu, pessoa que escreve isto sem saber porquê; quem são os outros seres que me perseguem em calções de banho havaianos; porque não é tudo tão linear como a álgebra? Talvez a pergunta mais irritante será porque é que tenho eu que me questionar sobre isto? Há coisas… há coisas que perturbam e crivam, há coisas que corroem e carcomem pior que ácido e fazem-nos pôr tudo em causa. Há testemunhos que nos enchem de revolta, respeito, ternura, e fazem todas as outras preocupações parecerem, realmente, irrelevantes a tal ponto que abdicaríamos do nosso trono tão lugar-comum num ápice. São motes para a contenda que se aproxima. Batalha essa inimaginável, ou absolutamente camuflada nas vicissitudes do nosso dia-a-dia. Um testemunho desses, da laife desdobrando-se aos meus olhos, vivi-o eu.

Era então, uma manhã chuvosa. As gotas ricocheteavam em tudo que possuía rigidez suficiente para as contrariar; a sua quantidade de movimento era tal que cortavam ou amolgavam, e arrastavam tudo. Era já formidável o efeito de pintura a aguarelas que a chuva havia conferido à paisagem; mau pintor, balbuciava eu. As nuvens cromadas, espelhavam o que realmente era negro, tenso e tão carregado de decadência: a cidade, a strite, os jardins esburacados… as pessoas com os seus recentes golpes, provocados por gotas aguçadas.

Saía de um lugar mafioso, tendo perpetrado actos condenáveis pela doutrina estabelecida, mas que na verdade são tão mesquinhos que até os próprios pastores se tornam piratas. Esperava mais uma aborrecida viagem, rotineira e auto-dirigida, entre a loja clandestina, situada na periferia da cidade e o lugar onde vou gastar dinheiro onde não devia gastar.

Em determinada estridente paragem, acomoda-se voltado para mim um casal dos tempos modernos, deveras vanguardista. Não querendo consultar feições no meu dicionário de idoneidade ocupacional, estava talhado em ambas as caras que aqueles indivíduos eram o que usualmente se apelida por escumalha social, restos, dejectos do grandioso penico.

Ele, ele era o típico proxeneta e capaz alimentador de farmácias de desilusão. Vestia pele de animal morto e previamente torturado, cuja função era a de proteger um corpo franzino e queimado pelo sol de outras terras. Tinha o cabelo a escorrer uma substância qualquer, talvez ectoplasma do fantasma que o penteia. Camisa aberta até ao estômago retraído, revelando vaidoso, a sua virilidade muito provavelmente pouco apreciada. Neste cenário rançoso, a boca; ainda babada pelo néctar alcoólico da véspera não ostentava a dentição completa, e os dentes que restavam, lembravam esculturas de cobre que apelavam às novas tendências artísticas; colava, de vez em quando, as suas chupadas borrachas osculadoras, no outro elemento do casal, que aceitava tais momentos com nenhuma ânsia em repeti-los.

Cinco minutos mais tarde, entre palavras de amor ou conselhos empresariais, entre carícias ou malícias, o apaixonado senhor levanta-se, e pede delicada e graciosamente com um “plim”, ao motorista o favor de deter a marcha na próxima chapa. As portas abriram-se e ao saltar para o passeio, oiço com um sorriso, a frase típica do devoto trabalhador, que encara o novo dia como a prestação de um importante serviço para a felicidade de cada um dos seus clientes, assim o é: “Ora, vamos ao trabalho!”.

Ela, ela era a típica doente dependente e proporcionadora de prazer a homens que são demasiado extrovertidos. Frequentemente sinto repulsa a esta gente, não sou um bom samaritano. Esta sujeita, possuía o dom da eloquência invertida, era carismática à sua maneira, e admirei-a. Sofria de uma magreza profunda, com certeza causada pela fartura de químicos, coadjuvada pelo jejum de alimentos da homónima roda. Vestia singela, a cachopa, e sem grande noção do que calha bem com o quê, o que normalmente não é característica de espécimenes daquela raça malfadada, as mulheres. Obviamente teria mais em que pensar. Tinha cabelos lisos claros que caíam por cima de pregas cutâneas que brevemente se chamariam rugas. Os olhos estavam no fundo do abismo criado pelas olheiras escavadas até por detrás do osso e fitavam com uma ataraxia terrível todo o cinzento; o cimento, o granito, o metal; e as carnes passantes em calções de banho havaianos, pelo vidro. Estava drenada, exaurida. A seringa ao introduzir, extraiu.

Puta, gostei dela! Não naquele sentido esperado, e comum. Não sou assim extrovertido. Queria ser amigo dela, queria dar-lhe coisas que ela não tem (entre elas o dinheiro, a troco de coisa alguma). Olhava-a sem interrupção, esperava um convite seu para fodermos, como percursor. Gostava de comprar-lhe aquele dia da sua vida e conversar, tratá-la com o respeito que merece, mas nenhum lho reconhece; porque naquele corpo de espantalho vi lá uma mulher, vi lá uma paixão. Vi nela as oportunidades desperdiçadas, os desvios erradamente escolhidos. Lembrou-me de mim, identifiquei-me com ela. Temos todos um pouco de “putice” dentro de nós. Queria tirá-la do buraco e que de lá de cima, por sua vez, me puxasse a mim.

Apesar de não me ter olhado nos olhos uma única vez, suponho que pensou em mim como mais qualquer um a querer aliviar o estresse.

Alto! Audição... Desligar.

Na bala com rodas o ar permanecia congelado, o silêncio era total, estava tudo dito desde a noite anterior. Os efeitos dos anti-depressivos matinais, ainda estavam para actuar. Só eu e a puta falávamos. Ela dizia-me que “o tempo não volta para trás, independentemente do que todos aqueles chanfrados possam dizer. O tempo é máquina de si próprio e não tenho muito tempo até aos próximos tremores. Preparar-me-ei para o frenesim sexual e químico, injectar-me-ei com esperma e depois com branca. Adeus, foi bom conhecer-te.”

Amanhã é novo dia, de velhas angústias. Um novo dia, as mesmas longas horas, fracos coices e falsos gritos… bastam.

O robô falou-me pela última vez. “Última paragem: Nada”.

Autocataclismo 006/100513 > A Crença

A tristeza maior da crença reside na sua querença. Ninguém acredita por acreditar, quem acredita tem sempre outro motivo a espreitar. Pode ser a redenção, a mitigação, a bod'expiação ou seja como for, é tudo traição à alma. E zás! Sermão para o menino embrulhar, violando a calma, fustigando a paz. Exército de bem-mandados, olhos caridosos no tempo parados; corações de leprosos e merda na cabeça, dentes nervosos, andar de perneta, baratas nas veias, milagres miraculosos, entropia nas meias. Pobre querente, mendigo sejas! Assim ostentas tu um nume numa cruz, apresenta-a e parto-ta nas ventas, enfio-ta no cu. Amen.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Autocataclismo 005/091027 > A Existência

Ser-se humano não é mais uma condição da existência, para se existir humanamente vive-se nessa perseguição do humano até à dexistência. A existência é apenas um conceito que habita no Ser, e por isso mesmo a existência pode existir, mas nunca padeceu nem nunca há-de sofrer.
O Ser é. > O Ser não existe. > A existência não é.

Autocataclismo 004/091027 > A Solidão

Quando mais ausente de mim estou é que percebo o quanto “sozinho” sou. A solidão é o indicador do quão fartos de nós estamos, ou de que, por uma circunstância qualquer, o quão longe de nós ficámos. Como seria de adivinhar, sendo este conceito um fruto da “imaginação”, ele só se poderia manifestar como uma escala de valoração da relação do eu comigo. Para desilusão de muitos que procuram a cura mila-malogrosa fora do imbigo, ela não tem nada que ver com as imagens passantes de passantes pessoas quando abrimos a pestana, e esse é o mito da interacção na sua forma mais ludibriosa e arcana, que é a de intra-acção para “fora” de nós mesmos, perfazendo assim o mirabolante sonho da existência humana.

Autocataclismo 003/091027 > O Medo

O medo é uma emoção da gente-animal, da que pensa muito e que cheira muito mal. O medo não tem a ver com reacção, ele é, em si mesmo, pré-acção, e um processo mecânico de tremuras e suores num descontrolo acelerado de prevenção de males maiores. Quem tem medo é bicho, e desses nem todos o têm, porque esses na sua simplicidade de lixo sabem que quanto menos sofrem, tão mais próximo dos Deuses rezam. Só os seres inteligentes é que dele precisam, de tal forma que a inteligência prova ser uma medida da capacidade de falência. Aos Deuses, como aos vermes, não lhes reconhecemos o temor, aos Deuses como aos Vermes não lhes chamamos, portanto, de "Senhor". Tanto uns como outros são as suas próprias circunstâncias e o destino de si, e nessa mesma qualidade e neste mesmo instante, Verme me afirmo, e nos ombros despidos de um Gigante sigo.

Autocataclismo 002/091027 > A Filiação

A questão da filiação escava bem fundo, na génese e desinência da projecção do Ser e da consciência. O mero reconhecimento da filiação leva à prisão, seja por procedência ou seja por derivação. Dirão que é a raiz, aceite ou contestada, e que toda a fuga apenas leva à aproximação bastarda. Direi, nada sou nem ninguém por imagem ou semelhança a alguém. Eu sou o produto inacabado de mim mesmo, desde nunca material, desde sempre uma corrente de ar desfeita pelo pinheiral. Ser eu sem fronteiras é ser na totalidade, é perder a âncora e a segurança de quem tem medo da una realidade. SER significa passar além do medo, arrombar portas e saltar janelas, perder-me no piche da noite e descobrir-me às apalpadelas, até que, com os dedos encarquilhados de si, possa dizer por entre dentes, “fô-dáss, eu aqui já me senti!”.

Autocataclismo 001/091025 > O Debutar

Uma série de exercícios em constante actualização para ir ao defundo de mim e amostrá-lo de forma duradoura, ao ritmo da digitação alucinante de unhas pestanejantes demolhadas em bagaço amarelo.
-> siga a masturbação...